Num momento em que é tão fácil pôr em causa tudo o que sabemos sobre o mundo, voltar a viajar comigo mesmo neste humilde diário trouxe-me algo de que não estava à espera: a noção de que tudo sempre esteve em causa, eu é que estava enganado. Mas não faz mal estarmos enganados. Vivemos numa bolha que parece estar a explodir à nossa volta. Mas só quando tudo nos falha é que descobrimos: afinal, sabemos pisar a lama e podemos começar a caminhar. Esta é a história de como descobri que, afinal, podia ser feliz mesmo quando o medo tomou conta de tudo o que conhecia. A história da noite mais intensa que já vivi. E é, também, o fim da minha viagem.

 

 

SOBREVIVER E SER FELIZ

 

 

Viajar para a Amazónia era um sonho que tinha desde os meus tempos de passar o dia colado nos documentários de bichos estranhos, de cobras venenosas e sapos fluorescentes. Tinha 8 ou 9 anos quando deixei de ver desenhos animados e mudei para o Nat Geo e Discovery Channel permanentemente. O meu imaginário de criança foi inundado desde cedo por criaturas tão estranhas que pareciam não poder ser reais e pela possibilidade de, num mundo assim, ser capaz de enfrentar todas as aventuras. Com a experiência da idade e o desencanto de ser adulto, o sonho de enfrentar todos os perigos com uma faca nos dentes desmoronou-se, mas só em parte. Por um lado, as minhas experiências com uma arma de caça submarina nas mãos revelaram que, num dia complicado, era bem capaz de morrer à fome, se só dependesse disso. O mundo do aventureiro solitário é bem mais difícil de viver do que a televisão faz parecer e, por isso, quando demorava a avistar um pássaro nas árvores ou o reflexo dos olhos de uma cobra na mata, já não ficava surpreendido. Pelo contrário, hoje em dia, tenho bastante noção dos limites que a minha vida no conforto do capitalismo urbano impõem quando o meu lado entusiasta de emoções fortes vem à tona. Mas, se tenho noção disso, também sei que sou capaz de aguentar um nível de desconforto físico bastante acima do normal. Comprovam-no as muitas dormidas na rua por capitais europeias, as viagens engatafunhado entre bancos de carrinhas velhas e mal-cheirosas e os dias gelados na praia na esperança de que o vento pare de soprar. Em nome de uma aventura, sou capaz de qualquer coisa e mesmo não sabendo quase nada sobre como viver na e da selva, era a isso que me tinha proposto fazer quando coloquei o pé direito dentro de um avião para Manaus. Felizmente, por esta altura, o Revelindo já não era um guia. Era um amigo.

Desde o primeiro dia de viagem vinha “enchendo o saco” na expectativa de que os últimos dias, em que o único viajante previsto para estar com ele no lodge era eu, fosse o da maior aventura da minha vida. Agora, também ele tinha, mais do que um cliente para satisfazer, um amigo com quem partilhar a experiência de sobreviver na floresta sem comida, sem água e munidos apenas de uma espingarda, dois facões, um arpão e duas canas de pesca. E, como viria a descobrir, não há nada que o faça tão feliz como isso. Partimos numa canoa cujas bordas passavam apenas ligeiramente a superfície da água o que, com a minha falta de técnica usando o remo, fazia com que, de tempos em tempos, um balde de água invadisse o fundo do barco e a Maggie, a cadelinha do Revelino que nos acompanhou em todas as aventuras, procurasse um lugar seco para descansar.

 

 

 

 

O destino inicial, às três da tarde, eram as folhas da outra margem do rio, para apanhar gafanhotos que serviriam mais tarde de isca para a pesca. De começo, tudo como sempre: não tinha olhos para encontrar os bichos que parecem folhas verdes entre as folhas verdes. Dos dez que apanhámos, eu apanhei três e dois deles foi o Revelino que os revelou, na ponta de um galho. Para que não fugissem, depois de levarem uma remada ou serem apanhados diretamente com as mãos, retirávamos as patas dos bichinhos e colocávamo-los numa garrafa.

 

 

 

 

Há um gafanhoto nesta imagem.

 

 

 

 

Uns quarenta minutos depois, estávamos prontos para pescar. Ao longe o som de um trovão anunciava que mais tarde ou mais cedo viria tempestade. Apressamo-nos em direção a um igarapé e lançamos as linhas à água.

 

 

 

 

Porém, desta vez, nenhuma piranha ou outro qualquer peixe mordeu o anzol e, quando o toró caiu, fomos obrigados a remar para o primeiro abrigo que encontrássemos. E este deu-se na forma de um hotel abandonado a uns dez minutos a remos de distância.

A canoa na margem e as mochilas apressadamente para fora, corremos para baixo do antigo restaurante suspenso no ar por estacas. De um lado, o que não estava coberto pelas poucas telhas que sobravam, a madeira estava podre e servia de casa aos cupins. Em cima, quando entrámos, percebi que o hotel, que, pelo que depois entendi, não terá sido visitado tantas vezes por gente, era agora um hotel da selva e esta era uma ótima anfitriã de si própria. Os morcegos saiam de uma salinha onde, provavelmente, teriam sido guardadas as comidas e esvoaçavam, confusos pela nossa presença, pela sala. O chão de louça partida ia sendo coberto pelo musgo e as madeiras estavam esburacadas pelos bichos. Mais uma vez, as aranhas com pelinhos nas costas faziam túneis de teia, na expectativa de que algum invertebrado distraído lhes fosse bater à porta. Eu, que não sou grande fã de tabaco, senti que era uma ocasião especial o suficiente para acompanhar o Revelino num cigarro à varanda que ameaçava cair de podre, com o nosso peso. As conversas que até então eram sempre sobre o mato e sobre os bichos, começaram a ser mais sobre a mãe e o pai, os irmãos, a vida e as namoradas. Lentamente, o guia que mandava na floresta foi se transformando num rapaz de vinte anos com dúvidas, manias e uma vida normal de jovem adulto só que num contexto que nem ele sabe o especial que é. Aprendi que nunca havia saído da Amazónia e que nunca tinha visto o mar. Que estava agora a começar a ter uma relação melhor com o pai e que não via a mãe há seis meses. Contei-lhe dos meus medos, dos meus amores e desamores, também, enquanto ateávamos fogo a partes do hotel que já não serviam para nada e fazíamos uma fogueira com metade da antiga varanda. E decidíamos que o lugar até não estava mal para passar a noite.

 

 

 

 

O “Hotel de Selva”

 

 

Saímos, já de noite, de lanternas ligadas apontadas ao pé dos igarapés e igapós. Os olhinhos reluzentes denotavam a posição de um jacaré filhote, aqui e ali. O Revelino estava a meio do processo de me ensinar como se imitava um jacaré quando, de repente, pediu silêncio. Perguntou-me se tinha ouvido “aquilo”. Respondi que não. Imitou o filhote de jacaré novamente.

 

 

 

 

Um Jacaré que não comemos nem nos comeu.

 

 

E foi então que ouvi um dos sons mais horripilantes que poderia imaginar. Num tom grave que os homens são pouco capazes de conceber mas com uma intensidade estrondosa, a floresta era varrida pela resposta de um jacaré que teria, disse-me o meu amigo, pelo menos, uns cinco metros. Pela frequência do gemido, não duvido. O meu coração batia como se tivesse acabado de sentir o vento da morte a passar atrás das minhas orelhas, enquanto o Revelino se divertia a pedir mais respostas do animal que, dizia ele, estaria a um pouco menos de um quilómetro dali. À nossa volta, só havia o negro da floresta e a imensidão das estrelas.

Entrámos na floresta submergida e colocámos as canas iscadas como armadilhas. Seguimos, remando devagarinho por entre os troncos e fazendo muito pouco barulho. Os sons dos animais eram agora muito mais intensos e escutavam-se todos os pássaros, o passar das ariranhas (lontras gigantes) e as mutucas que nos vinham picar o braço, quando acendíamos a lanterna.

Passava muito da hora de jantar e ainda não tínhamos comida. Numa curva por entre os troncos, o meu amigo apontou com o dedo para a esquerda e eu vi a cabeça de um jacaré no foco da lanterna, atrás de uma raiz. Perguntei ao Revelino se ele sabia fazer jacaré. Ele respondeu-me que sim. E, nesse momento, aquele bicho era a nossa única hipótese de jantar, se o conseguíssemos trazer para dentro do barco. Aproximámo-nos, sempre focando os seus olhos, tentando que o barulho dos remos fosse o mínimo possível para que o animal continuasse a achar que ainda estava incógnito. De um golpe na cabeça com o facão o bicho estava morto e dentro da canoa. Não passaríamos fome. Pensei no seguinte: Será que cometi um pecado ecológico ao consentir e até propor que caçássemos um animal destes? A pergunta pairou na minha mente noite dentro. Agora, depois de pensar um pouco, respondo-me a mim mesmo: talvez esteja pouco informado mas, pelo que vi, esta região não tem falta destes predadores incríveis. A cada saída de barco pela noite, o mais normal era vermos vários de cada vez e ouvirmos outros tantos. E embora o que estava a fazer fosse turismo, não há forma mais ecológica de ter essa experiência do que numa canoa a remo, utilizando apenas o que a natureza nos fornece para viver na mesma harmonia que, embora mortífera, a floresta utiliza para existir. Quando o objetivo é sobreviver, por mais duro que seja esse jogo quando comparado com a vida moderna que nos aliena desse tipo de realidade, é necessário conviver com a brutalidade da morte. Lá fora, no mundo em que não sabemos o que a nossa carne come e como ela cresce e morre, certamente, a crueldade de alimentar 7 bilhões de pessoas “civilizadas” é muito maior. Mas não temos de viver com ela porque as embalagens pintam em suas laterais as vacas felizes que que ruminam brotos de soja em colinas verdes. Aqui, para se almejar a ser um animal entre os outros, é necessário que o sangue gele com a mesma frieza com que o jacaré que jogamos na fogueira arranca as asas a um pato selvagem desprevenido.

Para além do jacaré, tínhamos para a janta quatro bananas nanicas e uma mão cheia de farinha de mandioca. Para dois jovens adultos que vagueavam a floresta em busca de pesca e caça desde as três da tarde, a cauda de um jacaré com pouco menos de um ano de idade não era proteína suficiente e passaríamos fome. De volta à canoa, remamos devagar, de olhos atentos ao foco da lanterna do revelino que ia à proa e apontava para as raízes submersas das árvores em busca de vida que se comesse. No rodar da lanterna, a expressão do seu corpo ficou rija e de uma braçada calma e silenciosa à que se seguiu um movimento rápido e certeiro, agarrou no arpão de três pontas que estava pousado no fundo da embarcação e empalou a cabeça de um tucunare mais ou menos do tamanho do meu antebraço. O peixe debateu-se e o arpão dançava a dança da vida e da morte no foco da minha lanterna. Quando a música chegou ao fim e o cabo da arma ficou mais calmo, o Revelino agarrou-o e começou a trazê-lo para dentro. Só que os peixes não morrem de uma vez e, num golpe de cauda ajudado pela gravidade, o animal soltou-se e desapareceu na escuridão.

Procurámos um pouco por ali pelo animal moribundo, enquanto o Revelino rogava pragas à sua estupidez. Senti-me identificado com aquilo – foi grande parte da minha história de caça submarina: acertar em peixes de raspão e vê-los quase no meu prato até se conseguirem soltar e desaparecerem no azul. Os peixes, quando atingidos fatalmente, como era o caso, são capazes de nadar tontos durante horas em direção à morte e não é incomum que os encontremos mais tarde como presas mais fáceis para os nossos estômagos. Mas este tucunaré seria comida para piranhas e não para homens.

Desistindo, o Revelino encostou o barco à raiz de uma árvore perto da margem. Pisou o fundo lamacento do igapó, descalço e, agora já sem reclamar, agarrou no arpão de três pontas e saiu sem uma palavra.

 

 

 

 

Eu vi, sozinho, com a Maggie na canoa, o afastar da sua lanterna pelo meio dos troncos até que o perfurar da água pelo seu arpão deixou de se poder escutar. Ficaram só os mil sons da floresta. E, mais uma vez, o medo da onça. Só que, agora, sentia-o muito mais real. Lembrei-me dos sete cães que o bicho levara há uns anos atrás da casa dos tios do Revelino, como se costumava contar sempre que alguém queria saber mais sobre o animal, durante um almoço qualquer, lá no lodge. Lembrei-me dos documentários que vi de criança que mostravam como o felino arrastava jacarés de três metros para dentro da mata sem um pingo de esforço e de como eu e a Maggie, de costas para terra firme num canto do mundo em que o destino e a história esquecem-se devorados por cogumelos no chão da floresta, daríamos um jantar exótico para o maior felino das américas.

Liguei a minha pobre lanterna, coloquei-a na cabeça e rastreei as sombras em busca de olhares esbugalhados na minha direção. Percebia agora que a minha luz não servia para este tipo de brincadeira já que o seu alcance era mais apropriado para ler um livro durante a noite ou para entender onde está o fecho éclair de uma tenda do que para focar os olhos de bichos. Se chegasse a ver uma onça pintada, seria certamente tarde demais. Mas, mesmo sabendo da inutilidade daquela ação, continuei a olhar em todas as direções e a forçar a brecagem do meu pescoço em busca de monstros que sabia não poder ver. O medo não está baseado na realidade e a resposta que lhe damos, normalmente, também não. É antes coisa de sonhos, de contos de criança que prevalecem para sempre em nossas cabeças e nos vêm morder muito mais tarde, quando já temos barba e pelos no peito. E reagimos de formas toscas, mesmo sabendo que são toscas, porque esse foi o legado que a natureza e índios que competiam com ursos, leões e todo o tipo de feras nos deixaram. Só que esses tinham o poder de fazer fogo sem fósforos, empunhavam lanças nas mãos e calçavam pés calejados que trepavam árvores espinhosas em segundos. Eu estava ali, com uma cadelinha ao colo que chorava porque o dono não se via no escuro, com as minhas mãos e pés inúteis de quem vive onde se trocam papéis pelo almoço e a memória passou para uma lista compartilhada na cloud. Sempre me vi como um bicho aventureiro capaz de superar os obstáculos da vida com o meu corpo atlético e astúcia de quem viaja o mundo sem muito dinheiro. E confesso que ambas as características já me serviram onde muitos teriam quebrado e voltado para casa mas, ali, tinha a certeza absoluta que as minhas melhores capacidades não chegariam para aguentar uma semana na floresta sem ser comido pelo gato, sem morrer de fome ou envenenado por algum sapo, ou sem cair reto em choque anafilático pelas picadas de vespas ou mordidas das formigas. E, depois de chegar a esta conclusão, só me restava o pouco orgulho que era saber que, mesmo assim, estava ali a pôr à prova a minha incompetência. E, num momento em que o orgulho é tudo o que nos sobra, não podemos senão agarrar-nos a ele. Desliguei a lanterna e fechei os olhos. Ouvi o som dos insetos que cantavam em busca de parceiros ou, como nós, do jantar. Ouvi o som da água a correr mansinha e o ocasional trovão à distância. Ouvi os peixes que saltavam de vez em quando e o coração bateu mais depressa mas os olhos mantiveram-se fechados, guardando a última noção de que ainda valia alguma coisa, mesmo sabendo que, ali, não valia mais do que as calorias que podia oferecer à floresta.

Foi como se tivesse chegado ao cume da montanha depois de uma viagem atribulada. A realização de um desígnio qualquer que eu não sabia que tinha pela frente, quando senti o bafo de Manaus pela primeira vez. Sei que foi apenas uma pequena aventura, pelo menos comparando com os extremos a que algumas pessoas chegam, mas alguma coisa se tinha entendido em mim. O contacto com esse medo no limbo entre o racional e o irracional e a superação de aceitar o que a floresta quisesse para o meu destino foi uma forma de contacto com a vida que não tinha experimentado, ainda. Senti-me como um soldado raso que tem que cruzar um campo de balas perdidas para tomar a próxima trincheira. Só que não tinha de correr. Só tinha de estar ali, na escuridão e no silêncio, com a cadelinha, as onças da floresta e, principalmente, com as da minha cabeça.

Esta tensa forma de meditação foi, de súbito, interrompida por um grito do Revelino que, certamente, ao sentir a falta da minha lanterna ridícula a indicar a minha localização, perguntou se estava tudo bem por ali. Respondi com uma segurança mentirosa que estava tudo ótimo e, passado um pouco, ele regressou com um pequeno tucunaré e com fome. Remámos de volta, o Revelino para a margem do rio exata onde estava o Hotel de Selva abandonado e eu para lugar nenhum porque estava perdido e seguia ordens.

Enquanto eu abria o peixe e limpava as suas entranhas o Revelino fazer o mesmo com o jacaré. Como já era tarde e havia fome, não comemos só a cauda do bicho e enfiámo-lo inteiro na fogueira, enquanto preparámos a grelha com finos troncos que retirámos à mata com um facão. A pele do animal decapitado ia ficando negra mas, por ser tão grossa, a sua carne cozinhava e, quando a grelha improvisada foi posta sobre os troncos altos que serviam para manter o fogo, foram apenas necessários mais uns retoques para que o exótico jantar estivesse pronto.

 

 

 

 

O jantar.

 

 

Devorámos a comida apoiada num tronco cuja base servia de apartamento para cupins. Com as mãos sujas de terra, chupei a carne das pernas do animal e dividimos irmãmente, embora eu mais no jacaré e o Revelino mais no peixe, os lombos suculentos das duas criaturas do rio, interrompidos apenas por alguma conversa suficientemente importante para cortar a fome. Não sobrou nada para além da cabeça do peixe e de uma pequena parte do jacaré que o Revelino atirou à cadela na esperança vã de que jantasse. Mas a Maggie estava mais esquisita do que nós.

 

 

 

 

 

 

Fumámos mais um cigarro. E, desta vez, ao contrário do primeiro que tinha sabido pessimamente, valeu-me a pena. Apesar do rugir da floresta e dos seus pássaros, insetos e outros bichos, parecia que o ar trazia um silêncio. Talvez fosse porque, enquanto fumávamos, apoiados nas estacas que sustentavam o hotel de selva, olhávamos para as estrelas que haviam aparecido no céu limpo depois da tempestade. E no céu estrelado nunca se ouve nada. Ou talvez tenha sido um silêncio mais da minha cabeça, fruto de tudo aquilo ser tão estranho que os sentidos começavam a não acreditar em si próprios e mandavam calar toda aquela informação absurda.

Contornámos o que outrora, quando não estava coberto de plantas, fora a cozinha do hotel, por entre a mata. Entrámos pelo hotel sem pagar, enquanto as aranhas corriam para dentro dos seus buracos na parede. Fizemos o check in e sentimo-nos em casa, no chão vazio por baixo do telhado sem telhas e sem telhado. Só o céu nos cobria.

Enrolei o casaco, coloquei uma das finas almofadas que usámos como assento ma canoa no chão, e deitei-me. O Revelino fez mais ou menos o mesmo. E aquilo estava mesmo a acontecer: a maior aventura da minha vida materializava-se no momento em que, antes de fechar os olhos, pensei em como havia viajado para os confins do que há de selvagem no mundo. Em como havia feito amigos que, ainda que nunca os volte a ver, ficarão guardados em mim para a vida toda. Em como fui impotente e inútil perante uma floresta que me comeria vivo em dois segundos, se quisesse, mas que não comeu. E em como agora estava debaixo do céu da Amazónia prestes a fechar os olhos, como todos os dias, mas nunca mais seria o mesmo.

 

 

 

 

Fomos pescar, quando o Sol nasceu.

 

 

 

 

 

 

Desta vez, não faltou peixe e, durante o pequeno-almoço, juntou-se-nos o pai do Revelino e um amigo que, por surpresa, encontraram a nossa fogueira enquanto iam ou vinham de casa. Foi o momento em que me senti mais dali. Percebi que não era mais um cliente quando, finalmente, fazia parte das piadas e não era tratado com a cordialidade e distância com que os ribeirinhos se dirigem aos turistas. Foi também o momento em que senti, pela primeira vez, o peso de ir embora.

Era o blues do último dia. Algo que sinto com frequência sempre que alguma viagem me toca um pouco mais o coração. Mas, aqui, o blues do último dia tocou em mim como um réquiem.

Enquanto o Revenaldo, o pai do Revelino, e o seu amigo, desapareciam com o barulho do motor à distância, nós preparámos tudo para ir embora. Limpar as facas, enfiar tudo na mochila, ajeitar a espingarda na canoa e partir. Por sugestão do Revelino, a meio do caminho, tivemos ainda tempo para parar numa margem para que eu pudesse dar o meu primeiro tiro. Acertei a garrafa que servia de alvo sem dar muita importância aquela experiência que normalmente toca as pessoas de alguma forma (mesmo as que não gostam de tiros, como eu). Estava demasiado ocupado na cabeça com outras coisas.

Remámos em silêncio de volta para o Lodge. E eu tive tempo para pensar. Mas não pensei em nada. Não conseguia.

 

 

O DESENCONTRO DAS ÁGUAS

 

 

A lancha abria caminho pelas águas do Rio Negro, a toda a brida. Depois das muitas horas de viagem que tentei fazer a dormir, aquela era a última parte do trajeto. O piloto ia calado e eu ia ao seu lado, olhando atento para as margens do rio que, agora, em vez de árvores, mostrava maioritariamente pastos e vacas. Ao longe, via-se o porto, toda a Manaus e as águas castanhas do Solimões a desentenderem-se com as do rio que navegávamos. O momento mágico de ver o primeiro fenómeno da Amazónio, aquele “encontro das águas” de que todos os guias, filmes e livros falam, era objetivamente o mesmo momento que poderíamos viver agora. Só que, agora, o barco seguiu, o piloto não pestanejou com o trajeto que, certamente, fará várias vezes por dia e eu, em silêncio, mascarando o fenómeno como se a sua causa fosse o vento, deixei as lágrimas rolarem pelo meu rosto. E era essa a tristeza feliz com que me desencontrava das águas de um lugar que mudou tudo, para sempre. E um boto cor-de-rosa mergulhava, cada vez mais longe de nós.

 

 

 

 

 

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