Os últimos dias têm sido difíceis. Não porque tirámos o equivalente a um fim de semana grande para estar em casa a trabalhar de forma um pouco confusa e a ver séries no Netflix. Têm sido difíceis pelo mundo que começámos a construir nas nossas cabeças. Um mundo diferente do que conhecíamos até agora. A verdade é que isto é algo inédito na nossa história recente. Mais do que isso, algo inédito na história das nossas vidas. Algo que vai mudar o nosso futuro para sempre. No entanto, é também algo que já estava previsto. Sabíamos que isto viria, mais tarde ou mais cedo. Mas é sempre mais tarde… Mais tarde para nós, para os nossos hábitos, para as nossas escolhas e para a preparação que não fizemos e, por isso, isto já estava previsto, mas não estávamos à espera. E agora estamos aqui. Viajar para a Amazónia deu-me razões para começar a estar menos à espera de algumas coisas. Mostrou-me que o mundo é infinitamente mais rico do que poderia imaginar e que devemo-nos a nós próprios e ao futuro manter algumas coisas como são. Vamos passar pelo que estamos a passar agora e vamos ter óculos novos. Ver coisas que não víamos. Quem sabe, coletivamente, vamos até tomar medidas para que os efeitos de uma próxima pandemia não sejam tão devastadores como estes vão ser. E, já que vamos usar óculos novos para olhar o mundo depois disto, poderíamos, também prestar atenção aquelas outras coisas que sabemos que estão para chegar mas que decidimos, todos os dias, deixar para resolver amanhã. E agora, quero contar-vos a viagem que me deu os melhores dias da minha vida e mudou para sempre a forma como olho para o mundo.

 

 

Pela primeira vez desde que conto uma aventura qualquer (normalmente, apenas em parte, porque a confusão da viagem se intromete no compromisso de me agarrar ao computador diariamente) sinto a necessidade de escrever sem me preocupar muito com a forma, com as enormes frases ou (e peço, desde já, desculpa) com quem me poderá ler depois. Não é porque não quero que o texto seja lido. É mais porque o que tenho à minha volta não me deixa pensar em nada que não esteja no horizonte à minha frente. Lá, na “realidade”, é muito difícil que isso aconteça. É tão fácil que os prédios (ou as mensagens ou os emails ou as combinações para logo à noite e amanhã) se intrometam no que temos à frente.  Mas, aqui, o verde termina no infinito e os únicos estímulos que me fazem despertar das tarefas do agora são picadas de mosquitos ou trovões da tempestade, à distância.

Há uma semana que não sei dos desastres ou dos milagres que podem ter ocorrido, “lá fora”. Não sei se morreu alguém de quem gosto, se fui despedido do meu trabalho ou se os Estados Unidos invadiram a Coreia do Norte. Pouca gente sabe, também, que estou aqui, na Amazónia profunda.

 

 

E é provável que não resista às pressões imensas para contar esta história que se exercem em conversas bêbadas nos bares escuros de Lisboa ou nas redes sociais onde, percebo agora, vivo cada vez mais tempo, na vida real. Acabarei por contribuir para divulgar este lugar onde o mundo em que vivemos se confronta com o mundo como ele é e, numa raríssima ocasião, perde. E estará, aí, um motivo de tensão – se, por um lado, sinto que todos deveriam saber que este lugar ainda existe, por outro, quero deixá-lo quieto, alheio ao risco que somos nós.

Isto porque, até agora, está tudo bem, por aqui. Algumas regiões da Amazónia vêm quinze barcos de diferentes companhias operar os mesmos igarapés e igapós. Outros, pior ainda, são agora grandes campos onde as vacas pastam e não percebem que estão a acabar com o planeta com seus gases enquanto ruminam, sem culpa, a relva dos trópicos. O edificado da natureza perdendo cada vez mais o seu sentido e servindo, mais uma vez, o interesse dos homens que tiram fotos e jantam entrecosto. Certamente, teria sido um dos primeiros se não fosse a sorte de ter sido recomendado por amigos viajantes ao Carlos, um peruano nascido em Iquitos (a maior cidade apenas acessível por barco do mundo. Um lugar construído, direta ou indiretamente, pelas costas vergadas de índios escravos que colhiam e transportavam borracha de seringueira e que Vargas Llosa retrata de uma forma horrorosamente bela em “O Sonho De Celta”). Agora, o Carlos está no Brasil e trabalha como gerente e guia, na região do rio Tupana.

De Manaus, são precisas duas travessias de barco (numa das quais, se vê o encontro das águas – um espetáculo que sentimos menos apenas porque a metrópole constitui ainda o pano de fundo) e cinco horas de carro por estradas acidentadas e lamacentas para chegar ao local onde uma pequena lancha nos vem buscar. É aqui que vislumbramos, pela primeira vez, a dimensão que a solidão ocupa na floresta inundada. Os barcos de uma pousada apenas são os únicos a navegar por entre as árvores. E as árvores refletem no espelho de águas calmas uma miragem lá dos sonhos, um mundo de cabeça para baixo que ocupa, normalmente, apenas espaços imaginários da nossa consciência e mais além. Se um ribeirinho, o nome que se dá aos habitantes das margens do rio (e há pouquíssimos, separados por quilómetros, na floresta) atira uma garrafa de água vazia para a corrente, o choque aos nossos olhos é tão grande que somos impelidos a recolhê-la, custe o que custar. Vi duas, desde que cheguei. A flutuar na água, em contraste até com os lugares mais idílicos que já visitei por esse mundo fora, onde o ocasional pneu navega com os barcos e dá boleia aos camarões, está apenas a imensidão de flores.

 

 

São elas que acidificam a água e lhe dão o negro da sua cor. E, no processo, adicionam mais um toque de Deus ao paraíso. De vez em quando, vemos também um ninho de vespas caído, um tronco que não resistiu ao vento ou à fúria de um relâmpago e a barbatana dorsal de um boto cor-de-rosa que, ao contrário do que diziam os índios, não tem o menor interesse pelo útero das mulheres (legenda em baixo) e se mantém, com o seu poderoso sonar, à distância.

A barbatana dorsal de um boto, uma espécie de golfinho de água doce. Diz-se que durante as festas juninas (vulgo Santos Populares) o boto aparece transformado num rapaz elegante que cobre com um chapéu a narina na sua cabeça. O rapaz então levaria as raparigas desacompanhadas para o fundo do rio, engravidando algumas delas. Diz-se que quando um rapaz aparece numa festa por aquelas bandas, é-lhe pedido que retire o chapéu para confirmar que não é um boto.

Não me interessa demasiado escrever sobre as pessoas que conheci na viagem ou no lodge, ainda que seja gente muito interessante. Acho que a paisagem potencia que assim sejam. Para viajar para aqui, é necessário partilhar sentimentos em relação à aventura, à natureza, e a esta forma mais crua que o mundo tem de se mostrar. Foi-me muito fácil fazer uma infinidade de amigos de todos os cantos do Brasil e do mundo, até porque viajava sozinho e não tive tempo de aprender a falar com os macacos e com as aranhas. Mas não quero dedicar mais linhas a eles, mesmo que mereçam. Quero, antes, lembrar-me, em texto, do Revelino.

 

REVELINO

 

Tem apenas vinte anos mas a selva ou talvez a autoridade de ser guia lhe confiram um ar ligeiramente mais velho. O seu corpo é o de quem não passa muito tempo quieto: alto, braços largos como as minhas pernas e um ar de quem está pronto para qualquer missão que a vida lhe atire para as mãos enormes. Tinha-las calejadas como se fossem de couro, e as veias como autoestradas se escorriam do pescoço à ponta dos pés. Arrisco dizer que a minha primeira impressão da brutalidade com que cumpre a maior parte das tarefas mundanas (como mexer num telemóvel) me levou a achar que não seria capaz de caminhar por um corredor sem derrubar metade dos objetos no seu caminho. E, no entanto, possuía a mais fina das destrezas quando dava um nó em qualquer coisa que merecia ser amarrada ou caminhava por entre as árvores em silêncio, atento a cada sinal da floresta.

 

Mas não fui capaz de perceber tudo isso, claro, num primeiro olhar. Quando o meu guia para a próxima semana me foi apresentado, não pude deixar de reparar na linguagem correta mas simples com que se comunicava. A utilização de alguns advérbios de modo em lugares pouco comuns e a forma despreocupada com que conduzia os discursos que antecediam ou finalizavam caminhadas e outras missões denotavam que Revelino não estudara na faculdade, que talvez não tivesse acabado a escola e a forma como, certa vez, procurou descontraidamente e sem sucesso a lanterna do telemóvel sem a encontrar mostra que, tampouco, essas coisas lhe importavam. Quando lhe perguntava sobre determinada planta, muitas vezes, respondia utilizando conceitos que não se aplicariam academicamente. Uma linguagem que, embora coerente, mostrava que entedia a floresta como lhe havia ensinado seu pai e não como aprendera num livro, como eu. E essa forma de conhecimento, em que por vezes não interessam as causas e os efeitos das coisas mas sim, simplesmente, o que elas são, para que servem e o que significam na narrativa do mundo prático é muito mais importante para quem sobrevive e é feliz no meio do mato. E, por ser útil, talvez, seja também uma forma mais pura de saber.

Num mundo com tanta informação sobre quase tudo, duvido que pouca gente tenha a sensibilidade na ponta dos dedos para tocar tão bem tantos saberes diferentes como o Revelino toca as raízes, as formigas e os segredos da floresta.

 

 

16 pensamentos sobre “

  1. Gostei bastante! Aguardo com curiosidade pela continuação da tua viagem João…

    Que esta nossa nova realidade que chegou a todos nós de uma forma abrupta… seja vista como um sinal que o planeta precisa de descansar de tantas atrocidades que nós Humanos o fizemos passar!

    Amanhã será um novo dia…

    Um Abraço

    1. Olá, Rui 🙂 Sim, há outras maneiras de olhar para isto. Acho que o mais importante é que essas maneiras sirvam para nos sentirmos bem e minorarmos o efeito que isto está e vai ter nas nossas vidas. Hoje coloco mais. Um grande abraço!

  2. Adorei!!! Incrível experiencia João! Obrigada por partilhar um pouquinho, me senti lá e ainda consegui ver o Revelino me guiando hahaha

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