Sempre que o eterno debate entre mercado livre e a mão do estado (e leia-se: sociedade) vem para cima da mesa (ou, nos dias que correm, para os grupos de whatsapp e para as redes sociais), eu lembro-me dos meus dias na Amazónia. Na floresta, o mercado é livre. Os bichos e as plantas associam-se ou matam-se consoante o que milhões de anos de existência lhes colocaram nos genes. A floresta, como um todo, não podia ser mais deslumbrante e a vida mais eficiente. Quem sobrevive na floresta é quem sabe perfeitamente qual é o seu lugar nela. Mas, para que isso aconteça, todos são comidos por todos. O combustível que faz girar as roldanas da natureza no seu estado mais livre é a morte. Numa altura em que a humanidade se confronta com um desafio da natureza, talvez seja a altura de questionar se queremos estar entregues à liberdade com que se governa a floresta ou se, antes, podemos pensar como algo mais do que bichos e fungos e, talvez, não fazer da competição no seu estado mais puro o nosso Norte. 

 

REI DA SELVA

 

Calcei as botas de explorador que tinha comprado em São Paulo quando decidi que empreenderia esta pequena aventura pelo canto mais verde do mundo. Vesti as calças, coloquei a máquina fotográfica ao pescoço, um cantil de água no bolso do casaco e parti para a aventura com o coração palpitante de uma criança que sai para brincar com os amigos pelas ruas do bairro. A mata, até esse momento, tinha sido explorada apenas de barco e o caminho que vinha dos confins da floresta e dava para a porta do meu quarto representava, de noite, aquele bosque proibido que intriga os protagonistas de todos os filmes fantásticos. O Revelino empunhava um facão que fazia rodopiar perigosamente de uma mão para a outra e vestia uma camisa e calças verdes camufladas que se enfiavam por dentro de botas altas. Explicou-nos o que já sabíamos: que a mata não é a nossa casa e que deveríamos manter as mãos em lugares que pudéssemos ver, quando nos apoiássemos nos troncos das árvores. Advertiu-nos também para a possibilidade de os troncos de árvore poderem, na verdade, não sê-lo para, antes, serem apenas algo com aspeto de tronco de árvore, mas com mais dentes.

Depois desta breve introdução ao passeio, cujo objetivo era criar um pouco mais de paranoia do que o necessário, fomos abrindo caminho pela folhagem. Entre pesquisar o solo na esperança de encontrar um escorpião e os galhos das árvores para dar de caras com uma cobra suspensa nas folhas, a primeira parte da caminhada foi um um transe de sensações e expectativa na qual ouvi muito pouco das explicações sobre o que estava à nossa frente e não na minha imaginação. Como viria a descobrir vezes sem conta durante toda a estadia por aqui, mesmo que os bichos lá estivessem, o mais provável seria que saíssem do caminho muito antes de os poder ver. Ou, no pior dos casos, que não saíssem e me deixassem a surpresa de uma vacina não intencional.

Passados quinze minutos, o Revelino pediu-nos que fizéssemos um círculo à volta de uma raiz. Na sua parte mais alta, havia um buraco escuro, tapado apenas por algumas folhas mortas de forma quase intencional.

 

 

 

 

O nosso guia agarrou no caule de uma planta de onde saíam uma série de pequenas folhas. Arrancou-as até ficar apenas com um longo fio verde com um triângulo de folha na ponta, como uma espécie de espanador. Cuspiu para a parte dianteira do instrumento improvisado e colocou-o no buraco, mimicando o movimento de um inseto em apuros. Daí a poucos segundos, umas patas grandes como o meu indicador apalparam o solo iluminado e toda uma caranguejeira, castanha e laranja, trouxe o seu corpo peludo para fora da toca, averiguando quem se atrevia a enganá-la de forma tão molesta. Bem que tentei fazer o mesmo, a partir daí, em quase todos os buracos com cara de albergar alguma espécie de rastejante, mas, daquela forma, apenas o rei da selva, o nosso guia Revelino. As presas do bicho medem metade de um polegar e o seu negro reflete a luz e a ideia de que uma picada não é agradável, apesar da potência relativamente baixa do seu veneno para as pessoas. Seria mais desagradável ser atingido pelos pelos que ostenta no dorso e que utiliza para se defender de predadores maiores do que ela (ou de humanos da cidade curiosos, como eu), esfregando as patas de trás e lançando-os pelos ar. O seu contato com a pele provoca uma sensação bastante desagradável que eu, felizmente, não tive a oportunidade de sentir.

 

 

 

 

 

 

Deixámo-la em paz, e seguimos floresta dentro para ver o que Darwin disse, no seu expoente máximo. A cada passeio pela mata, percebi a adaptabilidade dos bichos e das plantas aos micro-mundos que existem em cada árvore e em cada folha. A forma como retiram energia da luz, do solo, da água e uns dos outros mostra que a floresta funciona como uma infinidade de rodas dentadas da morte e da vida perfeitamente oleadas. As plantas envenenam quem as quer comer e não é desejado, os pássaros roubam os ninhos uns dos outros e, por isso, alguns constroem-nos ao lado de ninhos de vespas que não deixam ninguém que se aproxima escapar. Aconteceu-nos de estar a vaguear por um caminho e ter de voltar para trás, em fuga, pois perturbáramos um número considerável destas criaturas. Quem sofreu foi o cão que nos acompanhava e não percebeu a tempo de evitar, pelo menos, umas quinze ferroadas. Os sapos às vezes menores que as minhas unhas fazem de todos os buracos nas árvores que guardam água a sua casa. Alguns têm cor e forma de folha e só o Revelino era capaz de os avistar, ao que se seguia um constrangedor momento de procura pelo chão pelo bichinho, quase sempre, sem sucesso.

 

 

 

 

 

 

O mesmo sapo está por aqui.

 

 

Há larvas de inseto com sabor a coco (sim, comi uma larva) a crescer dentro de castanhas e aranhas do tamanho da minha mão que caminham pelas águas e trazem peixe para os seus buracos. Enormes montes, com mais de 3 metros de altura são casa para talvez milhões de cupins e os formigueiros de formigas “tira a roupa” (o nome faz jus ao efeito que os animaizinhos têm sobre nós, quando passeiam pelo nosso corpo) penduram-se dos galhos. As trepadeiras enredam-se nas mais potentes árvores, numa dança que dura muitos anos e, no final, mata a ambas – o abraço da morte, como dizem os locais. A floresta é como um campo de batalha onde se desenvolvem as guerras mais terríveis e as alianças mais astutas. A morte, na cara dos urubus que sobrevoam as copas em busca de um cadáver e nos troncos putrefatos por onde crescem cogumelos é o combustível de que a Amazónia se alimenta. E não há um maior bastião dessa morte nos sonhos dos homens do que a onça.

 

 

 

Um cogumelo iluminando o chão de folhas e troncos mortos.

 

 

 

Um cupimzeiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

Larvas de mutuca.

 

 

A ONÇA

 

É o felino com a dentada mais poderosa que habita o planeta. Ao contrário dos leões e dos tigres que asfixiam as suas presas, atacando as suas gargantas, a onça coloca os seus caninos nos crânios das vítimas e esmaga-os com uma brutalidade que só os nossos piores pesadelos conseguem imaginar. Não há, na selva, nada que os homens temam mais do que estas panteras, às vezes pintadas, às vezes negras como a noite. Isso mostra-se nas conversas ao jantar, nos relatos dos cães que desapareceram e dos homens que escaparam por um triz. O Gélio, piloto da nossa lancha, não fala muito e, por isso, quem contou a história de como uma vez um felino de quase três metros quase lhe roubou a vida foi o Revelino. Não o fez, porque, em vez disso, levou o cão que o acompanhava, de um salto. Ver um animal destes em segurança é a maior sorte que um viajante que ruma a este canto pode ter. Normalmente, no entanto, vê-lo, aqui, seria o seu último azar. Noutras partes do Brasil, com vegetação menos densa, como o Pantanal, é possível avistar onças nas margens de rios, se tivermos muita sorte. Mas aqui, a floresta é tão cerrada que, normalmente, não vemos mais de dez metros para qualquer lado. E, se tivermos uma onça a menos de dez metros de nós, é porque ela planeia que sejamos o jantar ou o pequeno-almoço, dependendo da hora do dia. E elas ainda estão por aqui, em grande número. Fala-se em como as galinhas de ribeirinhos que habitam as margens do rio Tupana vêm desaparecendo, de vez em quando. Só que as suas patas são de veludo e as suas jogadas são feitas pela madrugada, por entre as folhas altas e as raízes da floresta. E é por isso que a onça foi se transformando nesse personagem que está sempre presente mas não está em lugar nenhum. O monstro (que aliás também o é em muitas histórias brasileiras para crianças) que vem pela noite e que não se vê.

A primeira noite em que acampámos no rio foi também o primeiro momento em que percebi que a minha capacidade de extremar os limites do turismo tem, também ela, um limite. A noite caia e o frango assava na fogueira. Escolhi um lugar para armar a minha rede: longe dos restos de comida.

 

 

 

 

 

 

Era lógico e é o “suposto” mas mais ninguém quis acampar perto de mim. Senti um aperto em todo o corpo. Os bichos não costumam gostar de grupos de gente. Vão saindo do caminho e mantendo a distância. Mas, sozinho na mata, dentro de uma tenda com um mosquiteiro cor de laranja, se houvesse alguém com fome por ali, com certeza, seria o seu primeiro alvo. Aparentando estar bastante confortável com a situação e escondendo o medo da noite com uma piada, recolhi a minha tenda e procurei duas árvores junto do resto do rebanho. E, assim, passou-se uma noite mais tranquila, de fogueira acesa, sem onça e com um céu estrelado a cobrir a gritaria dos insetos e dos macacos da floresta.

 

 

 

 

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